terça-feira, 11 de maio de 2010

Golden Dawn

A segunda sociedade ocultista mais importante da segunda metade do século XVIII, a Ordem da Aurora Dourada (Golden Dawn), era muito menor que a Sociedade Teosófica, e nunca chegou a contar com mais de 300 membros em um mesmo período, mas sua influência foi muito maior que a sugerida pelo número de seus afiliados. Fundada três anos antes da morte de Helena Blavatsky, a nova organização foi estabelecida, pelo menos em parte, como uma reação ocidental ao orientalismo da Sociedade Teosófica. Apesar de envolta em mantos egípcios, a Aurora Dourada tinha escoras greco-romanas e evocava a fraternidade cristã dos rosa-cruzes. Todos seus membros fundadores eram, com efeito, rosa-cruzes e maçons. A Aurora Dourada também dava ênfase ao tipo de rituais secretos elaborados que Helena Blavatsky, com suas noções de simplicidade indiana, abominava; as reuniões da Sociedade Teosófica eram conduzidas segundo procedimentos que não eram mais misteriosos do que as Regras de Ordem de Robert.

O nome completo do novo grupo era Ordem Hermética da Aurora Dourada mas, para manter o segredo, quando em público seus membros referiam-se a ela como a AD. Tal como muitas coisas acerca da Aurora Dourada, suas origens estão envoltas pelas brumas da disputa. Segundo registra a tradição da própria ordem, ela começou em 1880, quando o reverendo A. F. A. Woodford, um membro do clero anglicano que também era maçom, deparou em uma livraria londrina com um lote de manuscritos, em linguagem cifrada, aparentemente de impressionante antigüidade. Em 1887 os manuscritos acabaram caindo nas mãos do doutor William Wynn Westcott, um médico que fora nomeado legista da região norte de Londres. Também era maçom praticante, membro da Sociedade Rosa-cruz da Inglaterra e teósofo.

Folheando os manuscritos, Westcott supostamente encontrou uma carta, escrita em alemão, aconselhando quem quisesse mais informações a contatar Sapiens Dominabitur Astris ("o sábio será governado pelas estrelas", em latim), que veio a ficar conhecido nos círculos da Aurora Dourada como SDA A carta dizia que SDA podia ser encontrado através de uma certa Fräulein Anna Sprengel, cujo endereço na Alemanha era gentilmente fornecido. Logo estabeleceu-se uma animada correspondência. Decifrados os manuscritos, descobriu-se que eles continham anotações e esquemas que esboçavam a silhueta de cinco rituais para uma sociedade oculta. Em pouco tempo Westcott recebeu instruções de SDA para poder preencher o esboço com rituais plenamente desenvolvidos e para recrutar iniciandos ­ou pelo menos é isso que diz a história oficial. No entanto, há fortes indícios que sugerem que os manuscritos cifrados, longe de estarem enraizados na antigüidade, foram escritos depois de 1870, provavelmente pelo próprio Westcott.

Ao que parece, não há muitas dúvidas de que Anna Sprengel e SDA eram personagens fictícias, e que suas comunicações foram forjadas por Westcott; após ver a Aurora Dourada bem lançada em seu caminho, Westcott anunciou o triste falecimento de Anna Sprengel, e com ela desapareceu também SDA E sabe-se que Westcott espalhou informações falsas sobre os Estudiosos Herméticos da AD, tal como ele então chamava a sociedade, para fazer com que ela parecesse ser "muito antiga", quando na verdade ele estava apenas alinhando seus primeiros iniciados.

Por que razão Willian Wynn Westcott, um respeitável funcionário público, teria se dedicado a práticas fraudulentas como essas, é um dos muitos mistérios que rodeiam a Aurora Dobrada. O historiador inglês Ellic Howe pode ter descoberto uma resposta quase um século depois, ao examinar os documentos antigos da sociedade. Howe mostrou a um perito em caligrafia vários documentos escritos por Westcott. O grafólogo insistiu que os textos não podiam ter sido todos escritos pela mesma pessoa: os estilos de caligrafia eram diferentes demais. Quando convencido por outras provas de que um único homem havia de fato escrito todos os documentos, o grafólogo concluiu que West­cott era um caso claro de dupla personalidade.

Outra explicação possível - que serviria também para esclarecer os motivos de alguns outros ocultistas vitorianos – é que Westcott pode não ter levado a história toda inteiramente a sério, e, portanto, não viu qualquer mal em seus pequenos enganos. (Ele, com certeza, não se envolveu nisso pelo dinheiro: cada membro pagava apenas dois xelins e meio por ano em taxas, e os gastos da ordem com incenso, vinho ritual, papéis e outros artigos semelhantes mal eram cobertos por seus magros ingressos). Talvez, apenas talvez, Westcott e alguns outros envolvidos nas sociedades secretas da época encarassem suas atividades somente como uma espécie de jogo, uma oportunidade para devanear, recitar abracadabras portentosos vestidos de mantos com capuz e compartilhar de palavras e sinais secretos com uma turma fechada de amigos - propósitos não muito diferentes dos que tinham os estudantes de universidades americanas que, também na mesma época, estavam formando sociedades secretas ou afiliando-se a elas.

Havia certamente um sentimento de excitação quase infantil em todo o empreendimento, tal como recordaria vários anos mais tarde Alfred Edward Waite, um destacado estudioso do ocultismo que presenciara os atos: "Nos teosóficos e outros círculos afins, os rumores acerca de uma ordem secreta de grandes pretensões corriam solto naqueles dias. Pessoas obscuras colocavam sigilos (selos) crípticos depois de seus nomes em comunicações inesperadas, como se para testar se eu já era membro. Pistas tenebrosas eram sugeridas em murmúrios abafados (...) alguma coisa que tinha a ver com essa história de fulgor obscuro. O nome de Wynn Westcott (...) pairava remotamente”.

Se de fato Westcott estava nisso mais pela diversão, o jovem escocês que recebeu a tarefa de dar forma plena aos rituais, Samuel Liddell Mathers, mostraria ser movido por deuses menos brincalhões. À primeira vista, Mathers pareceu ser bastante inofensivo. A.E. Waite descartou-o como mago bufonesco, e descreveu-o, de maneira não muito lisonjeira, como "uma pessoa estranha, com olhos meio de peixe". W. B. Yeats, que abandonou a teosofia em favor da Aurora Dourada, comentou que Mathers tinha "muita instrução, mas pouca erudição". Tendo passado anos inclinado sobre volumosos e misteriosos tomos na sala de leitura do British Museum, e possuindo uma veia teatral natural para vestimentas e cerimônias ornadas, Mathers, a pedido de Westcott, elaborou um conjunto de rituais impressionantes e esplêndidas insígnias para a ordem. Com o tempo ele foi ficando menos prestativo e aos poucos foi empurrando Westcott para o canto, tornando-se cada vez mais um autocrata.

Mathers era peculiar ao extremo. Segundo a esposa dele, Moina, que era mais conhecida na Aurora Dourada como Vesti­gia, nem ela, nem Mathers tinham "o que quer que seja a ver com qualquer ligação sexual - ambos nos mantivemos perfeitamente limpos". Ele sabia ser encantador. Yeats gostava de passar algum tempo com ele, e de vez em quando visitava os Mathers para uma estranha partida de xadrez a quatro, que colocava Yeats e Vestigia como parceiros contra Mathers e um espírito. Antes de fazer a jogada do espírito, Mathers olhava intensamente para a cadeira vazia de seu parceiro invisível.

Era raro que a megalomania de Mathers fosse atrapalhada pelos limites da realidade. Membro atuante de um grupo céltico marginal que queria restaurar os Stuart no trono de uma Escócia independente, acrescentou um patronímico escocês ao próprio nome, começando por chamar-se Samuel Liddell MacGregor Mathers e depois subindo de nível, para conde Mac­Gregor de Glenstrae, título que devia menos ao Burke's Peerage do que a sua própria imaginação fértil. Segundo algumas pessoas que o conheceram, ele por diversas vezes afirmou ser Jaime IV, - que não morrera na Batalha de Flodden em 1513, como em geral se acreditava, mas sobrevivera como adepto imortal. Yeats disse que Mathers "imaginava para si um papel napoleônico", em uma Europa transformada pelo retorno dos jacobinos, e "até oferecia cargos subordinados a pessoas inverossímeis". Cada membro da Aurora Dourada era identificado por um lema pessoal; o que Mathers escolheu era na língua gaélica e significava "régia é a minha tribo". Dentro da Aurora Dourada Mathers insistia, segundo suas próprias palavras, em "completa e absoluta submissão".

“Não ligo um átomo para o que você pensa”, disse ele a um membro que se atreveu a questionar a autoridade dele. “Recuso-me terminantemente a permitir críticas abertas a minha atuação, ou qualquer discussão acerca dela (...) de você ou de qualquer outro membro”. Infelizmente para Mathers, os membros da Aurora Dourada formavam uma turma bem independente. As listas da ordem - com os membros de cinco diferentes templos, de Londres a Edimburgo e a Paris - incluíam muitas pessoas talentosas, um ou outro gênio e alguns que simplesmente desfrutavam de dinheiro ou prestígio demais para curvar a cabeça confortavelmente.

Vendo as coisas em retrospectiva, W. B. Yeats, que em 1923 ganhou o prêmio Nobel de Literatura, foi sem dúvida o iniciado mais ilustre da ordem. O poeta tinha com o oculto um romance de toda uma vida. Desde a infância ele lia histórias irlandesas de fantasmas e bruxaria e na adolescência procurara "pessoas que tentavam comunicar-se com os poderes do mal". Quando rapaz, participou de uma reunião em que um feiticeiro encapuzado - que trabalhava com um turíbulo, adagas, um crânio humano e outros implementos apropriados - cortou a garganta de um galo novo e derramou seu sangue em uma cuia enquanto recitava encantamentos. Yeats não viu serpentes aparecerem, como outros presentes na sala disseram ter visto, mas sentiu-se rodeado por nuvens negras más, tão ameaçadoras que julgou ser necessário lutar para não ser dominado. Como membro da Seção Esotérica da Sociedade Teosófica, juntou-se a Annie Besant em experiências nas quais, como escreveu a um amigo, “uma agulha suspensa por um fio de seda em uma caixa de vidro moveu-­se para adiante e para trás em resposta a minha vontade, algumas experiências também de natureza ainda mais estranha”.

Por três décadas, Yeats esteve tão profundamente envolvido na magia e na política da Aurora Dourada e das numerosas organizações que a sucederam que é difícil entender como ele tinha tempo para escrever. Declarou que a magia era, "depois da poesia, a mais importante busca de minha vida", e era claro que não via qualquer conflito entre sua arte e sua imersão nas questões do ocultismo. Quando criticado por um amigo por seus interesses místicos, Yeats disse que "não poderia ter escrito uma única palavra" de algumas de suas obras "se não houvesse feito da magia meu estudo constante".

"A vida mística é o centro de tudo que faço, tudo que penso e tudo que escrevo", declarou.

Outra artista famosa na Aurora Dourada foi a atriz Floren­ce Farr, que estrelou em peças de Henrik Ibsen e George Bernard Shaw e foi amante de Shaw por vários anos. Yeats disse que ela tinha "três grandes dons: uma beleza tranqüila (ou) um incomparável sentido de ritmo e uma bela voz". Tinha também um humor finamente temperado. Embora outros com freqüência fiquem com os créditos pelos chistes, aparentemente foi Florence Farr que declarou, na época do julgamento de Oscar Wilde - um caso de calúnia envolvendo o homossexualismo de Wilde – ­ “Não me interessa o que fazem, contanto que não o façam no meio da rua e assustem os cavalos das carruagens”.

Do mesmo modo que Yeats, Farr não era uma mera diletante em magia. Durante algum tempo na década de 1890, ela foi praemonstratrix, a principal instrutora de rituais do Templo de Ísis-Urânia da Aurora Dourada, em Londres; e consta dos registros que em certa ocasião ela despertou um espírito chamado Taphthartharath fervendo uma conserva de cobra em um "caldo infernal" de ingredientes mágicos. A vi­são da bela atriz, vestida com um manto branco com uma faixa amarela na cintura e carregando uma adaga enquanto cuida do cozido mágico, tornou-se uma verdadeira epifania da Aurora Dourada quando os outros participantes em volta do caldeirão são acrescentados à cena: um pintor, um corretor de valores e um engenheiro elétrico, todos vestidos do mesmo modo e portando espada, vela, corrente e lanterna. Shaw disse que sua amante estava "em violenta reação contra a moral vitoriana, em particular a moral se­xual e doméstica". Seu temperamento rebelde não deve ter facilitado as coisas para o pretendido autoritarismo de Mathers.

Tampouco poderia ser-lhe favorável a natureza igualmente rebelde de outra afiliada famosa, Annie Horniman. A presença de Horniman, filha de um rico e famoso importador de chá, veio a calhar para Mathers, pois era tão rica quanto ele era pobre. Generosa, ela era devotada ao palco, e seria lembrada fora da Aurora Dourada como construtora do famoso Teatro da Abadia, em Dublin. Conseguiu para Mathers um emprego como curador do museu do pai, e mais tarde estipulou uma anuidade para Ma­thers e sua esposa, que por acaso fora sua colega de escola. Tudo isso funcionou bem no início, mas com o tempo os Mathers, que na época estavam vivendo nas altas rodas de Paris às custas dela, ficaram tão extravagantes e exigentes que as finanças de Annie Horniman foram por água abaixo. O resultado foi um enorme tumulto na Aurora Dourada.

Outros notáveis da AD foram o escritor Algernon Black­wood, conhecido por suas histórias ocultistas; o astrônomo William Peck, chefe do Observatório de Edimburgo, e a psicanalista e romancista Dion Fortune, cujos livros muitas vezes abordavam temas sobrenaturais. Fortune acabou fundando sua própria sociedade ocultista, a Fraternidade da Luz Interior, que existe até hoje. Outro membro da AD, A. E. Waite – o estudioso que se lembrava do "fulgor obscuro" dos rumores que rodearam a fundação da ordem - foi descrito como uma das poucas pessoas dos tempos modernos que escreveram inteligentemente acerca da cabala.

O instrumento mais importante para Mathers em sua contínua luta pelo controle dos membros era sua alegada relação exclusiva com os Chefes Secretos da ordem. Estes eram mestres imortais e sobre-humanos, de certo modo semelhantes aos mahatmas dos teosóficos. Na época de Mathers, apenas ele e a esposa alegavam ter contato com eles, e ele guardava zelosamente sua presumida conexão. "Não posso dizer nada a vocês", declarou em um manifesto de 1896 a respeito dos Chefes Secretos. "Nem mesmo sei seus nomes terrenos. Conheço-os apenas por certos motes secretos; mas muito raramente cheguei a vê-los no corpo físico; e nessas raras ocasiões o encontro foi marcado astralmente por eles”.Só estar na presença desses adeptos, explicou, era como estar perto do "brilho de um relâmpago", exceto pelo fato de que a experiência era sustentada, e não momentânea. "Não posso conceber que um iniciado muito menos avançado possa suportar tal tensão, mesmo por alguns minutos, sem que advenha a morte", declarou Mathers, presunçosamente.

Segundo ele dizia, os Chefes Secretos transmitiram-lhe toda a antiga sabedoria e os rituais, que ele então passou para a Aurora Dourada. Disse que os Chefes se comunicavam com ele por clarividência, por instrumentos semelhantes em princípio aos tabuleiros dos Ouija, por "Voz Direta audível a meus ouvidos externos e aos de Vestigia" e mostrando-lhe livros antigos para copiar. "A tensão de tais labores tem sido, como podem entender, enorme", queixou-se ele, em especial a “provação de receber instruções para um ritual secreto particularmente rigoroso, "que eu achei que me mataria, ou a Vestigia, ou a ambos". Em 1892, Math­ers mudou-se para Paris e, alegando estar sendo guiado pelos Chefes Secretos, fundou uma segunda, ou mais interna, ordem da Aurora Dourada. Com o estabelecimento desse quadro de elite, que Mathers chamou de Ordem da Rosa de Rubi e da Cruz de Ouro (Ordo Rosae Rubeae et Aurea Crucis, ou simplesmente a RR et AC), a AD foi efetivamente transformada em uma academia de magos. O membro da Aurora Dourada que já houvesse passado pelos exames relativamente simples dos quatro graus externos da ordem tinha pela frente uma tarefa atemorizante. Precisava passar por cinco exames separados só para ser admitido na RR et AC. Uma vez com o pé na porta, por assim dizer, deveria passar por outras oito provas para chegar ao estado de theoricus adeptus minor - um adepto da ordem interna. Havia ainda mais cinco graus depois desse, mas quase ninguém além de Mathers e Westcott chegou a tais alturas. Com a RR et AC montada e funcionando sob a liderança de Mathers, a ordem exterior de Westcott tornou-se pouca coisa mais que uma casca vazia. O próprio Westcott pertencia ao grupo interior.

Os rituais da nova ordem central eram maravilhosas criações de Mathers. Por exemplo, no rito de iniciação da RR et AC, o candidato ingressava na abóbada dos adeptos, de sete lados e cerca de 2,50 metros de altura, com as paredes cobertas por símbolos cabalísticos cujas cores também traziam significados ocultos. A abóbada acomodava pelo menos quatro pessoas, juntamente com um altar - e um ataúde em que repousava o corpo de Christian Rosenkreuz, em geral representado por Mathers ou por Westcott. (Quando mais não fosse, esse colorido ritual serviu pelo menos para que Mathers se livrasse de Westcott de uma vez por todas. A idéia de ter um de seus legistas imitando um cadáver e deitado em um ataúde aparentemente não foi do agrado das autoridades londrinas, que, assim que souberam disso, tomaram as medidas necessárias para forçar Westcott a afastar-se da Aurora Dourada.) O clímax dramático do rito iniciá­tico era um terrível voto de segredo, cuja violação resultaria em "uma corrente mortal e hostil de vontade posta em movimento pelos Chefes Secretos desta ordem, pela qual eu posso cair morto e paralisado". Durante esse ritual, os candidatos juravam dedicar-se à "Grande Obra, que é purificar e exaltar minha natureza espiritual, que com ajuda divina eu possa (...) conseguir ser mais que humano (...) e que neste caso eu não abuse do Grande Poder a mim confiado".

A magia através da qual os iniciados usavam esse Grande Poder era misturada a partir de diversas fontes, além dos Chefes Secretos. Nutria-se da obra de John Dee, o matemático e astrólogo inglês com idéias ocultistas do século XVII que fora conselheiro da rainha Elizabeth I, e de dois antigos manuscritos franceses: A Magia Sagrada de Abra-Melin, o Mago, um tratado de tranqüilo misticismo que Mathers supostamente descobrira e traduzira, e A Clavícula de Salomão, o Rei, uma cartilha que instruía os magos a usarem roupas peculiares e a empregar figuras geométricas, espadas, varinhas de condão e cantilenas que levavam horas para ser entoadas.

Mathers não era o único criador dos rituais mágicos da Aurora Dourada; pelo menos um, a cerimônia usada pela atriz Florence Farr para invocar o espírito de Taphthartharath, foi escrito por um engenheiro elétrico de 23 anos de idade chamado Allan Bennett, um dos que se juntaram a Farr para pô-lo em prática. O ritual exigia muitas preparações e preparados: a pasta de amoníaco e as sementes de coriandro eram até fáceis de encontrar, mas, Bennett teve que escrever a um amigo para obter uma cobra conservada em álcool. O próprio ritual era longo e incluía algumas ameaças poderosas que podiam ser usadas pelo mago da arte (no caso, Florence Farr) se Taphthartharath demorasse a atender ao chamado. "Amaldiçôo-te e fulmino-te, Ó, Espírito", declamou ela. "Consigno- te para o mais baixo Inferno de Abaddon."

Presume-se que o espírito tenha finalmente aparecido ­pelo menos para dar alguma satisfação aos participantes, embora não haja registros a respeito de como seria a aparência dele; nem mesmo se sabe se ele pôde ser visto em sua forma física. Após ter sido obrigado a "ensinar-nos todos os Mistérios das Artes e Ciências Ocultas", Taphthartharath teve permissão para esgueirar-se de volta para sua residência habitual, com instruções para retornar "o mais depressa possível, em qualquer momento que te invocarmos e chamarmos".

Às vezes, a magia da Aurora Dourada era usada com propósitos médicos. Annie Horniman foi solicitada, por um membro de um grau inferior, a fazer alguma coisa pelo "pobrezinho do Charlie Sewell", uma criança com epilepsia. Horniman dedicou-­se a estudar o problema "no plano astral".

"Passei pelo Hexagrama dourado e pela Cruz vermelha", relatou mais tarde. Lá, no plano astral, ela pôde ver que a versão astral do menino tinha uma "bola azul e negra giratória seguindo­-o, presa à cabeça dele por um cordão". Ela colocou um talismã sobre o peito dele e fez alguns sinais de banimento. "A bola, que parecia estar viva, reagiu como se estivesse então morrendo e o cordão secou", escreveu. A seguir ela viu o ambiente da casa dele, que estava "cheio de diabretes negros, como moscas", de modo que o ajudou a segurar a espada dela e fez mais sinais. As anotações feitas por ela existem, juntamente com comentários feitos por Mathers ao resenhá-las ­"Não foi certo pôr o talismã sobre o peito dele. Se fosse colocado na frente dele, como um escudo, tudo bem." Mas não há qualquer indicação de que a doença de Charlie Sewell tenha melhorado depois do tratamento astral.

Um jornal ocultista, o Equinox, relatou os resultados de outro caso envolvendo o notório Aleister Crowley, o protegido brilhante mas de espírito negro de Mathers, que viria a se transformar em um fator de destruição na Aurora Dourada. Crowley - que, por acaso, publicava o Equinox - supostamente fez um talismã conhecido como “Tábua Flamejante do Querubim Águia de Júpiter”, para curar a mãe de outro membro, seriamente enferma. Como o colega não obedeceu às instruções de Crowley para "alimentar o talismã com incenso e dar-lhe orvalho para beber", no início ele quase matou a anciã, que foi "acometida de uma série de ataques violentos". Depois que o membro reconsagrou corretamente o talismã, porém, a mãe dele "rapidamente recuperou toda sua antiga força, e viveu até a idade de 92 anos". Ou, pelo menos, foi isso que o Equinox afirmou.

A despeito do juramento de "não abusar do Grande Poder", os iniciados eram às vezes acusados de usar a magia com más intenções. Certa vez, Bennett e Crowley convenceram-se de que W. B. Yeats estava usando a magia negra para atacar Crowley, porque - o raciocínio deles é de tirar o fôlego - tinha ciúmes dele por ser melhor poeta. De modo que conduziram um ritual não especificado para reagir a esse suposto ataque. O duelo presumido deve ter terminado empatado, pois nenhum dano foi relatado por nenhum dos lados.

Outro incidente envolveu um bastão de vidro pertencente a Bernnett, que supostamente estava investido de uma poderosa magia. Um teósofo conhecido de Bennett, que zombou da idéia de um "bastão fulminante mágico" viu-se subitamente paralisado pelo instrumento de que fizera pouco. Segundo a história, ele foi incapaz de mover-se por catorze horas.

Nos anos vinte, Dion Fortune afirmou ter sido submetida a um brutal ataque oculto por Vestigia Mathers, em punição por ter escrito alguns artigos de que a senhora Mathers não gostou. Fortune alegou ter começado por "desenvolver um sentimento geral de um vago mal estar" que "gradualmente amadureceu em um nítido sentimento de ameaça e antagonismo". Então, rostos de demônios começaram a aparecer-lhe em lampejos. Em seguida, diz a história, a vizinhança dela foi invadida por gatos negros, em tal número que o caseiro do vizinho "tirava montes de gatos da soleira da porta e do parapeito da janela com uma vassoura, e declarou que nunca na vida vira tantos". Quando Fortune encontrou um "gigantesco gato listado, duas vezes maior do que um tigre" em sua própria escada, soube que precisava reagir - apesar de o gato ter desaparecido quando ela olhou para ele. Ela afirmou ter viajado para o plano astral, onde se engajou em uma titânica batalha com Vestigia Mathers. Finalmente, com a ajuda dos Chefes Secretos, Dion Fortune prevaleceu, e o ataque terminou - embora mais tarde ela tenha descoberto que suas costas estavam "marcadas por arranhões como se houvessem sido unhadas por um gato gigantesco".

Poucos anos depois, uma moça chamada Netta Fornario, que pertencia a uma seita originária da Aurora Dourada e tinha negócios com Vestigia Mathers, foi encontrada morta em uma praia da ilha escocesa de Iona. Estava nua, exceto por um manto negro - uniforme de oficial da Aurora Dourada conhecido como hiereus. Em volta do pescoço dela havia uma corrente de prata enegrecida, e sua mão sem vida segurava uma longa faca. Um médico da região disse que Fornario havia morrido de ataque cardíaco. Dion Fortune discordou. O corpo estava arranhado, disse ela, sinal seguro de que a jovem fora vitimada por Vestigia Mathers no plano astral.

Muito antes da batalha astral de Dion Fortune com Vestigia Mathers, conflitos terrenos tanto de natureza filosófica como pessoal no seio da Aurora Dourada haviam fragmentado a ordem em diversas seitas sucessoras. O cisma mais devastador resultou do choque de vontades entre Samuel Mathers em Paris e os membros do Templo de Ísis-Urânia em Londres. Mathers afastou muitos dos membros em 1896 ao expulsar Annie Horniman da organização. A razão ostensiva foi a insubordinação - ela negou-se a assinar um compromisso de completa submissão aos editos dele - mas não há dúvidas de que ele também estava reagindo ao fato de Horniman ter cortado sua mesada de 200 libras esterlinas por ano.

Contudo, a ruptura final entre Mathers e os membros de Londres foi precipitada pela introdução de Aleister Crowley na Aurora Dourada. Crowley, que já estava trabalhando pesado para estabelecer sua reputação de homem mais perverso do mundo, foi admitido na ordem exterior em 1898, e logo lançou seu feitiço sobre Mathers, que rapidamente o promoveu. O comportamento de Crowley, porém, era ultrajante demais para a maioria dos membros da ordem em Londres, que desaprovavam suas atividades sexuais espalhafatosas. Em janeiro de 1900, o Templo de Ísis-Urânia negou.se a obedecer uma instrução de Mathers no sentido de iniciar Crowley na segunda ordem, a RR et AC. Ma­thers ficou lívido de raiva. Convidou Crowley a ir para Paris e iniciou-o naquela cidade.

Em março de 1900, Mathers e os ofIciais da Aurora Dourada em Londres estavam trocando acusações e ameaças. Mathers enviou um edito exonerando Florence Farr de seu posto como chefe da segunda ordem e outro abolindo um comitê londrino que estava estudando a validade da liderança dele. Ele ameaçou esmagar os insurgentes com uma "Corrente Punitiva" gerada pelos Chefes Secretos e Ocultos. E então despachou nada menos que Aleister Crowley para reprimir a rebelião.

O resultado foi uma confrontação quase farsesca que foi chamada de Batalha de Blythe Road. No dia 17 de abril, Crowley e outro membro leal a Mathers invadiram a sede londrina da ordem, no número 36 da Blythe Road, e ocuparam a propriedade. Em pouco tempo, Florence Farr e outros adversários de Mathers chegaram. Convocaram para auxiliá-los um oficial de justiça, que despejou os invasores. Os partidários de Farr trocaram sem demora as fechaduras.

No dia 19 de abril, Crowley reapareceu em Blythe Road, com um disfarce que deve ter assustado os vizinhos. Estava vestido com roupas típicas das Highlands escocesas, tinha sobre o rosto uma máscara negra de Osíris e portava uma adaga. Os rebeldes livraram-se dele chamando mais uma vez a polícia. Crowley voltou para Paris, onde encontrou Mathers sacudindo umas ervilhas secas em uma bacia e invocando os demônios Belzebu e Typhon­-Set para que lançassem seu poder malévolo contra os que se opunham a ele.

Pelo jeito, os demônios deixaram-no na mão. Os londrinos expulsaram Mathers, que a partir de então desapareceu quase por inteiro dos anais da Aurora Dourada. Pouco se sabe do que se passou com ele depois. Morreu em Paris em 1918.

Livre de sua bête noir despótica, o Templo de Ísis-Urânia tentou refazer-se sob a enérgica liderança de Yeats, mas as lutas internas tolheram seus esforços desde o início. Após cerca de dois anos, o templo dividiu-se em várias facções. Os membros cuja principal preocupação era mística mantiveram o controle do templo sob a liderança de A.E. Waite, enquanto Yeats e outros que estavam interessados principalmente em magia realinharam-se como uma seita dissidente chamada Stella Matutina, ou Estrela da Manhã. Ao mesmo tempo, diversos templos que permaneceram leais ao defunto Mathers começaram a chamar-se de Alfa e Ômega, uma sobrevivência da AD que acabou tendo vida curta.

A Stella Matutina atravessou claudicando os anos trinta, embora o próprio Yeats, farto de brigas incessantes na cambaleante organização, tenha se afastado de todo papel ativo em 1923. Mesmo assim, manteve-se em contato com seus antigos companheiros de bruxaria. Alguns anos após ter deixado todos os remanescentes da Aurora Dourada para trás, Yeats observou que, embora poucos que "pertenceram com qualquer intimidade a nosso círculo tenham abandonado o estudo (...) as vidas da maioria, tanto quanto sei delas, têm sido perturbadas e infelizes" devido a sua participação. E no entanto ele aparentemente achava que a familiaridade com o ocultismo valia seu preço em dores. "Fizestes das trevas vossas inimigas", escreveu certa vez, em uma passagem que pode ser vista como um desafio dos que adotam a sina do místico àqueles que a rejeitam. "Nós - nós trocamos civilidades com o mundo que está além”.



Fontes:

Seitas Secretas – Coleção Mistérios do Desconhecido. Rio de Janeiro: Abril Livros, 1992

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