sexta-feira, 26 de agosto de 2011

SEXUALIDADE

A Bela Adormecida Do Bosque E O Despertar Da Sexualidade

Autor: Ana Claudia Matos Goncalves

INTRODUÇÃO
Para que um leitor crie laços afetivos com a literatura, há muitos fatores em jogo. O principal é a adequação dos textos nas etapas do desenvolvimento infanto-juvenil. E os Contos de fadas ajudam nesse desenvolvimento, porque possui uma linguagem especifica para cada fase da criança.
Embora cada criança, pré-adolescente e adolescente tenha evolução biopsíquica diferentes a natureza e a seqüência de cada estagio são iguais para todos.

Inicialmente os Contos de Fadas eram escritos para adultos, muitos dos textos transmitidos hoje para as crianças tinha um cunho sexual forte. Em uma das primeiras interpretações de A Bela Adormecida, o príncipe abusa sexualmente da princesa em seu sono, depois parte deixando-a grávida. Com a invenção da imprensa que as crianças começaram a manusear livros específicos para seu desenvolvimento intelectual.
Esse artigo visa uma análise da simbologia sexual dos Contos de Fadas, especificamente do conto a Bela Adormecida no Bosque, visto que esse texto é repleto de símbolos sexuais. Este estudo foi feito por meio da visão psicanalítica e da independência da mulher sobre seu corpo e sua sexualidade.
Tendo tal objetivo, referimos ainda ao estudo do autor da obra, Charles Perrault (1628-1703).
Para tanto, dentre todos os métodos utilizados para elaboração deste artigo, destacamos os seguintes: primeira etapa, foi realizado um estudo sobre os Contos de Fadas e suas simbologias e na segunda etapa, analisamos o conto A Bela Adormecida do Bosque, focalizando o despertar da sexualidade da personagem do conto.
No intuito de garantir um maior grau de cientificidade ao nosso trabalho, valemo-nos do olha teórico de alguns críticos, como: Bruno Bettelheim (1980), Cristiane Madanêlo de Oliveira (2009), Marilena Chauí (1984), e, por fim, Elaine Maria Braghirolli (1990).
Dividimos o nosso artigo em duas seções. Na primeira, intitulada Charles Perrault e os Contos de Fadas, faremos algumas considerações sobre o autor e a história dos Contos de Fadas. Já na segunda seção, Bela Adormecida e o despertar da sexualidade, identificaremos as simbologias sexuais contidas na história.
A edição da obra por nós utilizada foi a versão de Charles Perrault encontrada no livro Contos de Perrault. 6ª edição. Belo Horizonte: Vila Rica, 1999.
I – CHARLES PERRAULT E OS CONTOS DE FADAS
Contemporâneo do fabulista La Fontaine, Charles Perrault (1628-1703) viveu em Paris e morreu aos 75 anos. Membro da alta burguesia, Perrault foi imortalizado por criar uma literatura de cunho popular que caiu no gosto infantil e contou também com a aprovação dos adultos.
Com redação simples e fluente, Perrault publicou um livro de contos conhecido como Contos da Mamãe Gansa, que ficou conhecida em todo mundo. As versões infantis de contos de fadas hoje consideradas clássicas, devidamente suavizadas, teriam nascido pelas mãos de Charles Perrault, inclusive o conto A Bela Adormecida no Bosque que é a base do nosso artigo.
Os contos de fadas são uma variação do conto popular ou fabula. Partilham com estes os fato de serem uma narrativa curta, transmitida oralmente, na qual o herói ou heroína tem de enfrentar obstáculos antes de triunfar contra o mal. Originalmente concebidos como entretenimento para adultos, os textos traziam doses fortes de adultério, incesto e canibalismo, eram contados em reuniões e não em creches. Com as histórias de Perrault, os contos passam a ser lido para crianças.
Para Bruno Bettelheim (1980, p. 69),
Como toda grande arte, os contos de fadas tanto agradam como instruem; sua genialidade especial é que eles o fazem em termos que falam diretamente às crianças.
Ao longo dos últimos anos, os contos de fadas e seus significados oculto tem sido objeto de análise de diversas correntes da psicologia, afinal numa sociedade sem rituais de transição da fase infantil para adulta, os contos de fadas auxilia a criança a aceitar sua separação com a família e ingressar no universo adulto.
É característico dos contos de falas colocar um dilema existencial de forma breve e categórica. Isto permite à criança aprender o problema em sua forma mais essencial, onde uma trama mais complexa confundiria o assunto para ela.
(BETTELHEIM, 1980, p.15)
Os contos podem também, ser analisados sob a ótica da repressão sexual, no qual possuem um lado libertador, que oferece à criança recursos para lidar com manifestações sexuais no imaginário e o lado pedagógico orientando-as para desejos apresentados como ilícitos, narrando as punições que elas podem sofrer. A Psicanálise divide a sexualidade infantil em três fases, e a repressão dos contos de fadas atua sobre elas, que são a fase oral em que a criança satisfaz sua necessidade sexual pela boca, a anal a criança experimenta satisfações em expulsar as fezes ou em retê-las e a genital quando o adolescente passa a olhar para o outro com maior interesse sexual. Essa última que será discutida em nosso artigo, pois sua punição dessa fase ocorre através da curiosidade. “Enquanto diverte a criança o conto de fada a esclarece sobre si mesma, e favorece o desenvolvimento de sua personalidade.” (BETTELHEIM, 1980, p.20).
Portanto, Charles Perrault, com suas adaptações literárias, trazia ao final dos textos conceitos morais, essa perspectiva de escrever promove na literatura infantil a existência de um teor pedagógico associado ao lúdico, mostrando também um lado psicológico dos Contos de fadas que auxiliam na formação de uma vida adulta.
II – A BELA ADORMECIDA E O DESPERTAR DA SEXUALIDADE
A Bela Adormecida no Bosque é um conto de fadas, adaptado pelo escritor Charles Perrault, sobre uma princesa que é enfeitiçada para dormir até que um príncipe encantado a desperte com um beijo de amor. Baseava-se numa antiga lenda do escritor Basílio, que era intitulada de O Sol, A Lua e Tália, em que Tália só desperta após ter o espinho do sono retirado de seu dedo por um de seus dois filhos gêmeos que tendo acabado de nascer buscava alimentar-se. A primeira versão do Conto já intitulado A Bela Adormecida do Bosque adaptado por Perrault fazia parte do livro Os Contos da Mamãe Gansa.
Marilena Chauí (1984), professora de Filosofia da USP e autora de vários livros, divide os contos de fadas em dois tipos: um designado como contos de retorno, cuja sexualidade aparece nas formas disfarçadas da genitalidade, são aqueles que asseguram a criança o retorno a casa e ao amor dos familiares, como os contos João e Maria e Chapeuzinho Vermelho e outro como conto de partida, em que a sexualidade genital terá prioridade sobre as outras fases oral e anal e os personagens desses contos passarão por várias provas que atestem sua maturidade, exemplos desse tipo de conto são a Cinderela, A Bela e a Fera entre outros.
O conto escolhido para o presente artigo, insere-se nos contos de partida, no qual estudaremos o lado da sexualidade na história. A Bela Adormecida no Bosque aborda da luta da menina para atingir a condição de mulher, assumindo-se com firmeza suas vontades e seus sonhos, sendo que a adolescência é a passagem do ser meninas para o ser mulher. Nos contos de partida, a adolescência é atravessada submetida a provações até ser ultrapassada rumo ao amor e a vida nova.
Nesses contos, a adolescência é um período de feitiço, encantamento, sortilégio que tanto podem ser castigos merecidos quanto imerecidos, mas que servem de refugio ou de proteção para a passagem da infância à idade adulta.
(CHAUÍ, Marilena. Contos de Fadas e Psicanálise, 1984).
A história segundo Perrault, inicia com o nascimento da personagem marcado por dificuldades, pois sua mãe, a rainha, era estéril. Quando a criança nasce é marcado pela celebração do novo, da criação, da continuidade dos antepassados.
Era uma vez um rei e uma rainha que estavam muito desgostosos por não terem filhos – mais do que se imaginar. Mas finalmente um dia a rainha engravidou e teve uma filha.
(PERRAULT. A Bela Adormecida no Bosque, 1999, p.89).
Surge então as fadas, que representem o poder, retratam a variedade dos diversos lados do ser humano. Uma fada, entretanto é preterida, ela simboliza o lado obscuro do ser humano. Ela foi relegada ao abandono e uma vez reprimida esclarece que o destino está traçado: a morte da princesa.
A fada malvada estava tão furiosa que, logo ali, fez a terrível profecia de que a princesa, ao completar 15 anos, se picaria num fuso e morreria.
(PERRAULT. A Bela Adormecida no Bosque, 1999, p.90).
A partir deste momento analisaremos as simbologias do conto. O rei, na ânsia de proteger a filha, manda destruir todas as rocas do Reino, na verdade, destruía a possibilidade dela aprender a lidar com o lado feminino, pois a roca expressa o tecer, a atividade feminina do gerar. A Bela Adormecida será vitima da curiosidade que a faz tocar no objeto proibido – o fuso, onde se fere e sangra. O objeto fuso, possui também a simbologia do órgão sexual masculino. O furar o dedo relaciona-se com a mão, símbolo do controle do agir, ou seja, ela estaria com dificuldades de cuidar da sua vida, devido à super-proteção dos pais e o sangramento representa o inicio da menstruação, que surge na adolescência.
É muito significativo que o rei, o homem, não compreenda a necessidade da menstruação e tente impedir a filha de viver o sangramento fatal. [...] Todos os esforços do rei para evitar a “maldição” da fada maligna falham. [...] O rei não pode impedir o sangramento fatal da filha.
(BETTELHEIM, 1980, p. 271).
A ausência dos pais nesse período simboliza a incapacidade dos pais de protegerem os filhos das fases do crescimento pelas quais todos passam. E a maldição se concretiza. “Na linguagem popular, referindo-se também à sua origem Bíblica, chamaremos a menstruação de ‘maldição’, e é uma maldição feminina”. (BETTELHEIM, p. 273). No livro Bíblico de Levítico, traz a passagem que o autor Bruno Bettelheim diz sobre a maldição da menstruação.
Quando uma mulher tiver seu fluxo de sangue, ficará impura durante sete dias: qualquer um que a tocar será impuro até a tarde. Todo móvel em que ela se deitar durante sua impureza será impuro, e igualmente aquele que ela se assentar. [...] Se alguém dormir com ela, e for tocado por sua impureza, será impuro durante sete dias.
(LEVÍTICO, Capitulo 15, Versículo 19).
A maldição da princesa irá acontecer durante o encontro com uma mulher velha, que de acordo com a Bíblia, esta maldição é herdada de mulher para mulher. E vencida por um sangramento, a princesa cai num longo sono, protegida de todos os homens e de encontros sexuais precoce. Este adormecer da princesa pode ser associado com o desejo de dormir constante dos adolescentes ou de ter a sexualidade adormecida. Em nosso artigo predomina a segunda opção.
O Rei ordenou que a deixassem dormir em paz, até que a hora do seu despertar chegasse. A boa fada que lhe tinha salvado a vida, condenando-a a dormir cem anos, encontrava-se no Reino de Mataquim [...] foi porém avisada no mesmo instante.
(PERRAULT. A Bela Adormecida no Bosque, 1999, p.98).
Muitos serão os príncipes que tentaram alcançar a princesa antes dela se tornar uma adulta, mas todos eles pereceram nos espinhos ao redor do castelo. “O conto adverte à criança e aos pais que o desertar do sexo antes da mente e do corpo estarem prontos para ele é muito destrutivo.” (BETTELHEIM, p. 273).
É preciso que se cumpra o ciclo completo, os cem anos, ou seja, tudo tem o seu momento, não se consegue violar o ritmo da vida. Depois deste período surge o príncipe, que com o auxilio de sua espada foi abrindo caminho para o interior do castelo, ou seja, a vida vegetativa da princesa irá ceder espaço para a tomada da consciência adulta.
O encontro harmonioso do príncipe e da princesa, o despertar de um para o outro, é um símbolo do que implica a maturidade. [...] A vinda do príncipe no tempo certo pode ser interpretada como o evento que produz o despertar da sexualidade.
(BETTELHEIM, p. 274).
Enfim dependendo da idade, a criança entenderá de modo diferente este despertar do sono, porém o Conto A Bela Adormecida auxilia a criança a criar uma idéia menos traumática sobre o período da adolescência e da menstruação. Para ela no tempo certo, a primeira cópula terá conseqüências felizes. E a maldição é uma benção disfarçada, pois implanta na criança o pensamento de que estes acontecimentos devem ser levados a sério, mas que não precisa temê-los.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
É fato que os Contos de Fadas caíram no gosto popular, sejam crianças ou adultos. E que Charles Perrault junto com outros autores conseguiu imortalizar contos fantásticos que serviam de conselheiros para transmitirem lições de moral para crianças.
Podemos caracterizar os contos de fadas como pedagógicos, mas não apenas isso. Para uma eles deverão ser utilizados como momentos de descontração para que elas possam entender os verdadeiros símbolos dos textos.
Assim, os contos de fadas, através de sua riqueza simbólica, descrevem a realidade subjetiva da mente humana. Isso nos torna mais verdadeiros, pois nos faz refletir sobre os aspectos obscuros da nossa alma, que não podem ser alcançados diretamente através do pensamento.
E o conto A Bela Adormecida no Bosque, possui características fundamentais para um crescimento intelectual da criança, preparando-a para uma passagem importante das nossas vidas e auxiliando nas experiências do despertar da sexualidade vivido pelos adolescentes, principalmente as meninas, que passam por transformações mais definidas e turbulentas no corpo.
REFERÊNCIAS:
BETTELHEIM, Bruno. A Psicanálise dos Contos de Fadas. Rio de janeiro: Paz e Terra, 1980.
CHAUÍ, Marilena. Contos de Fadas e Psicanálise. (Do livro: Repressão sexual: em nossa (des)conhecida. Editora Brasiliense, 1984) Disponível na internet via http://www.cefetsp.br/edu/eso/contosfadaspsicanalisechaui.html, capturado em 16/06/2009.
CRISTIANE MADANÊLO DE OLIVEIRA. CHARLES PERRAULT (1628-1703) online] Disponível na internet via WWW URL: http://www.graudez.com.br/litinf/autores/perrault/perrault.htm Capturado em 16/06/1009
BRAGHIROLLI, Elaine Maria; BISI, Paulo Guy; RIZZON, Luiz Antonio; NICOLETTO, Ugo. Psicologia Geral. 9ª ed. Revisada e atualizada. Porto Alegre: Vozes, 1990.
PERRAULT, Charles. A Bela Adormecida do Bosque. IN: Contos de Perrault. Trad. Regina Regis Junqueira. 6ª ed. Belo Horizonte: Vila Rica Editora, 1999.
Bíblia Sagrada. Tradução dos Originais: Centro Bíblico Católico. 14ª edição. São Paulo: Editora Ave-Maria, 1998.
http://www.artigonal.com/literatura-artigos/a-bela-adormecida-do-bosque-e-o-despertar-da-sexualidade-1064507.html
Perfil do Autor

Sou Professora de Ensino Fundamental I e estudo Letras vernaculas na Universidade do Estado da Bahia - UNEB.

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